segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Vencedor de Pulitzer, Paul Salopek cruza o planeta a pé para documentar cultura


Nos últimos dois anos, o jornalista americano Paul Salopek tem ouvido canções sobre pescarias, sobre guerras, sobre deuses e até mesmo sobre camelos. Em janeiro de 2014, num abrigo perto das ruínas de Petra — mitológica cidade encravada no deserto da Jordânia, usada como cenário no filme “Indiana Jones e a última cruzada” —, ele acompanhou a lamentosa voz de Qasim Ali e um grupo de beduínos, tocando suas rababas (uma espécie de violino), num improvisado e emocionante concerto noturno.


Uma das canções de Ali — descendente dos nabateus, povo que se estabeleceu em Petra há 12 mil anos — foi gravada, também de forma improvisada, por Salopek, que a colocou no site “Out of Eden walk”. É lá que ele vem registrando os diversos encontros que tem tido desde 2013, quando iniciou a épica jornada que dá nome ao portal. Até 2020, Salopek, 53 anos, vencedor de dois prêmios Pulitzer, pretende percorrer — a pé, sempre que possível — cerca de 34 mil quilômetros, da Etiópia, seu ponto de partida, até a Terra do Fogo, no Chile, refazendo a rota dos primeiros humanos modernos, que saíram da África para explorar outros continentes, há cerca de 60 mil anos. Durante o projeto multidisciplinar — financiado pela National Geographic e que tem a Universidade de Harvard como um dos parceiros — ele tem relatado temas ligados a arte, tecnologia e meio ambiente, muitas vezes de forma cruzada.

— As músicas que tenho encontrado pelo caminho dizem muito sobre a cultura de cada local — diz ele, por e-mail. — Não apenas as músicas dos nômades, dos pescadores ou dos mercadores, por exemplo, mas os próprios sons das trilhas e das ruas e até mesmo todo o muzak que você escuta ao fundo. Se bem que, nesse sentido, diria que Sting está numa posição de destaque.

Adepto do chamado “slow journalism” — de reportagens longas, com extensa apuração, em contraponto ao frenético ritmo do jornalismo on-line —, Salopek não carrega música consigo. Seu equipamento na solitária viagem — que já passou por Etiópia, República do Djibouti, Arábia Saudita, Jordânia, Israel, territórios palestinos, Chipre, Turquia, Armênia e Geórgia, onde está há algumas semanas — inclui, essencialmente, material de acampamento, uma pequena máquina fotográfica, baterias recarregáveis e “um telefone vagabundo”.

— Em lugares mais remotos, uso telefone por satélite. Quando fico mais tempo parado nos lugares, como agora, uso um smartphone, para me comunicar com fontes e com meus editores. Na maior parte do tempo, o celular está desligado. Não pretendo atravessar o planeta a pé olhando para uma pequena tela de plástico — afirma Salopek, que a cada 160 quilômetros percorridos faz uma pausa, tira uma foto panorâmica e faz uma entrevista curta, padrão, com quem estiver mais perto, numa seção do site batizada como milestones (marcos).

Apesar de quase “unplugged”, Salopek, que também é formado em biologia, tem testemunhado a crescente força da internet na rota dos nossos antepassados. No deserto de Afar, na Etiópia, considerado um dos mais quentes do planeta, surpreendeu-se com um “oásis eletrônico”, movido a diesel, na vila de Dalifagi, onde nômades carregam seus celulares enquanto os camelos descansam.

— É uma coisa assustadora e ao mesmo tempo fascinante. Alguns dos meus guias na viagem liam para mim, nos seus celulares, os posts que tinha acabado de mandar para o site. Outros tentavam me guiar através do Google Earth, enquanto tentava convencê-los a usar o mapa ou, no máximo, algum GPS bruto disponível. Uma das lições que aprendi até agora foi que o mundo digital está, lentamente, tirando a capacidade de o mundo físico nos surpreender.

De uma forma ou de outra, informações atualizadas fizeram com que Salopek alterasse parte de sua rota, evitando adentrar o território sírio por conta dos conflitos no país. Mesmo assim, ao visitar campos de refugiados nos arredores, testemunhou programas de arte como terapia contra traumas de guerra.

— Vi atividades nesse formato funcionando em campos de refugiados nas proximidades da Jordânia e da Turquia — conta ele, que chegou a ser ameaçado por milicianos curdos ao atravessar o país. — São oficinas de música, de pintura e de teatro, que ajudam as pessoas a manterem suas identidades culturais. Objetos de arte são como totens nesses momentos.

Acostumado a percorrer áreas turbulentas — durante anos foi correspondente do “Chicago Tribune” e colaborador da própria “National Geographic”, relatando a partir de diversos países da África e Ásia — Salopek tem acompanhado na recente viagem a destruição de artefatos artísticos, e não apenas por obtusos guerrilheiros.

— Testemunhei uma extraordinária destruição e sucateamento de objetos de arte, em particular ao longo do Vale do Jordão, movida, em parte, pelo mercado de antiguidades, com especial interesse por objetos da Idade do Bronze. Como no mercado das drogas, isso só acontece porque há quem compre.

Citando Hemingway em “As colinas verdes da África” (“Foi ali que ele disse que a verdadeira arte sobrevive”), Salopek afirma que o “corpo a corpo” proporcionou os momentos mais ricos de sua viagem até agora.

— Tenho cruzado com pessoas incríveis, entre cantores, escultores, poetas e dançarinos. O mais impressionante e estranho deles foi Uri Gil, ex-piloto do exército de Israel transformado em pintor e que faz quadros de ex-colegas inspirado no estilo de Rembrandt — conta ele, que inicia nos próximos meses uma nova seção do site, a “Galeria da Trilha”, na qual vai destacar o trabalho dos artistas que encontra no caminho. — Caminhar por paisagens novas é como entrar num quadro, fazendo com que ele ganhe vida.

Com a sua “caminhada para além do Éden” sendo acompanhada por estudantes de todo o mundo — por meio de laboratórios e workshops produzidos por Harvard e pelo Pulitzer Center —, Salopek defende o ritmo naturalmente desacelerado do projeto, que vai virar livro, argumentando que fomos “desenhados” para absorver informação a 5km por hora, velocidade média da jornada.

— Não se engane, gosto de rapidez. É algo excitante. Mas acredito que no ritmo atual, estamos perdendo textura, foco e resolução nas histórias que temos relatado. Muita velocidade pode nos deixar perdidos. O que tenho dito, para estudantes ou não, é que é bom desacelerar de vez em quando. E refletir.

Fonte: O Globo

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